EITA CENTENÁRIO MASSA. E A BOMBA NO MEIO
Algumas notícias de Recife, que hoje é só frevo, desde às 7h da matina.
Aos cem anos, frevo vai à China e faz até versão de Michael Jackson
Ritmo será declarado Patrimônio Imaterial do Brasil pelo ministro Gilberto Gil.
Nova geração leva o frevo a países longínquos e provoca polêmica com inovações.
Do G1
O frevo, um dos ritmos mais importantes e característicos da música brasileira, tem celebrado seus cem anos nesta sexta-feira (9) com uma série de eventos comemorativos que vão culminar no próximo carnaval em Pernambuco. Selos dos Correios, discos, livros e, principalmente, orquestras típicas vão festejar a data, convencionada a partir da impressão da palavra "frevo" pela primeira vez no "Jornal Pequeno do Recife", em 9 de fevereiro de 1907.
Nesta sexta, a capital pernambucana anuncia um espaço dedicado ao ritmo, o Paço do Frevo, que ficará em um casa de 2.200 metros quadrados onde antigamente funcionava a empresa de telégrafos. O projeto custará US$ 5 milhões para a reforma do local e envolverá programas para a difusão do frevo e de capacitação para profissionais envolvidos com o ritmo.
O ministro Gilberto Gil, que está no Recife para o evento Feira Música Brasil, irá declarar em cerimônia o frevo como Patrimônio Imaterial do Brasil, título que deverá trazer apoio governamental à tradição. Gil também participou de uma outra homenagem ao gênero, uma coletânea dupla com um disco cantado e outro instrumental que está sendo lançada pelo selo Biscoito Fino - "100 anos do frevo - É de perder o sapato". O registro também inclui participações de Maria Bethânia, Lenine e Chico Buarque.
Outra atração é a banda A Troça, que reinterpreta frevos clássicos e é formada pela geração mais nova da música pernambucana e ligado ao manguebeat, como Fred 04 (Mundo Livre S/A) e Siba (Mestre Ambrósio).
Frevo também é polêmica
Ritmo que tem sua tradição defendida com fervor no Recife pelos seguidores, o frevo nasceu como uma evolução de ritmos como polca e maxixe e, segundo historiadores, a palavra se originou como uma corruptela de "ferver" ou "fervar". Conhecido no resto do Brasil durante o Carnaval pela vertente "frevo de rua", que é instrumental e onde os metais têm papel preponderante, o gênero tem viajado o mundo, chegando ao leste europeu e à China e recebido novas incorporações por meio de músicos mais jovens - mas não sem provocar polêmica.
Um dos nomes mais conhecidos a trabalhar o frevo nos últimos anos é a SpokFrevo Orquestra, criada em 2001 e liderada pelo maestro Spok. O conjunto, que mistura um pouco do jazz ao frevo, já se apresentou na França e lançou um disco no final de 2004 ("Passo de anjo"). "A idéia era fazer um disco de frevo com liberdade de expressão. O frevo de rua é algo mais relacionado à farra em que a música divide espaço com a folia, e a idéia da orquestra é transformar essa música em algo que as pessoas possam prestar atenção", disse Spok.
No entanto, a incorporação do jazz faz torcer o nariz da ala mais tradicionalista do frevo. "Fico chateado e triste quando falam que a gente está seguindo os norte-americanos. A gente não perde a alma do frevo quando faz uma mistura diferente", diz. Spok também se apresenta nesta sexta-feira com A Troça na praça Marco Zero na capital pernambucana às 22h.
Outro nome que se equilibra entre a defesa da tradição e a introdução de novos elementos é o Maestro Forró, que lidera a Orquestra Popular Bomba do Hemetério. O músico, cujo nome verdadeiro é Francisco Amâncio da Silva, reúne durante todo o ano, duas vezes por semana, seus músicos para estudar e praticar o frevo.
A Bomba do Hemetério foi campeão do concurso recifense do gênero no ano passado, vencendo outros 25 conjuntos. Maestro Forró, em outros projetos, também já mostrou o frevo em lugares improváveis como China e o Leste Europeu. "Lá na China eles têm a idéia de que veio da América Latina e algo parecido com Ricky Martin ou se é do Brasil é o samba do Rio de Janeiro. Depois de um tempo eles gostaram muito, tentaram até se mexer, mas ficou um negócio engraçado", afirma Maestro.
Em relação aos tradicionalistas recifenses, além de algum arranjo diferenciado, o choque maior é causado pela sua roupa. "É que é esperado algo mais formal considerando que eu sou o maestro da orquestra. Mas eu uso uma bermuda grande com uma camisa social, uns óculos nada a ver, isso choca algumas pessoas do frevo."
Sua orquestra vai se apresentar na terça-feira (20) de carnaval em Pernambuco ao lado do percussionista Naná Vasconcellos mais 600 tambores, além de ter a participação da baiana Maria Bethânia.
Outro projeto curioso do Maestro Forró é o Bloco Megahits, ao lado do DJ Dolores (parceiro de turnês internacionais), em que hits pop como "Beat it", de Michael Jackson, e "I will survive", de Gloria Gaynor, ganham ritmo de frevo. Os tradicionalistas que não ouçam...